Quero uma doula

Relatos de parto

Considerações sobre a dor do parto - Por Elisa Manfrin

Recentemente pari meu filho em casa, um acontecimento intenso, único e lindo que foi bastante documentado em fotos e vídeos. Esses registros foram bastante divulgados por mim e por amigos, de forma que muita gente pôde ter uma boa noção, como espectador, de como foi essa experiência. Várias pessoas se emocionaram, elogiaram, me parabenizaram, e se sentiram incentivadas a ter uma experiência parecida. Muitas outras, no entanto, focaram apenas na dor inerente ao processo de parir. Vieram até mim dizer que não teriam coragem de enfrentar essa dor. Por que a dor do parto parece ser assim tão terrível, que assusta pessoas que nunca a enfrentaram?
Tendo passado por essa experiência há pouco tempo, posso contar algumas coisas sobre ela, do meu ponto de vista, que pode não ser verdade para outras mulheres. A dor existiu. Foi forte. Pensei que seria insuportável. Pensei em desistir. Até que entendi seu significado. A dor foi um portal, que separou a minha vida em antes e depois da chegada do meu bebê. Um bebê na minha barriga, por mais que se mexesse, por mais que pudesse ser visto nos exames de ultrassom, era algo abstrato. No trabalho de parto, à medida em que a dor foi se intensificando, esse bebê foi ficando concreto. Mas, mesmo concreto, ele ainda era parte de mim, uma parte que queria se soltar, e que eu não deixava? e quanto mais eu não deixava, mais doía. Quanto mais eu demorei a entender que aquele era um momento de transição, que eu precisava abandonar a minha realidade como ?não mãe?, e permitir que a mãe nascesse junto com o bebê, mais a dor cresceu. Então eu entendi que eu estava nesse portal, e que ninguém mais poderia atravessá-lo por mim. A dor significou a ruptura. Significou abandonar tudo o que eu conhecia da vida e aceitar aprender e construir tudo novamente. Significou me abrir para uma nova vida, que nascia de mim, mas que precisava existir por si só. Decidi fazer a travessia, e a partir desse momento a lembrança da dor foi sumindo, o bebê na minha barriga foi se tornando o meu bebê, meu ser amado. Concreto. Real. Presente.
E a dor? Sumiu. Virou prazer. Prazer físico (sim!) e emocional. Prazer de acompanhar a cada dia o crescimento do meu filho, a sua entrega e confiança totais a mim. Dor pra mim, hoje, é segurar meu filho nos braços chorando, sem poder fazer nada para acalmá-lo. Dor é pensar que se algo acontecer a mim, faltará alimento, colo e carinho de mãe a ele. E nesses quase dois meses como mãe, sei que ainda não tenho nem noção de todas as dores que uma mãe pode enfrentar durante o crescimento de seu filho. Perto delas, a dor do parto não é nada.

(Texto escrito por Elisa Manfrin, mãe e doula, em 15/05/2013, após o nascimento do seu primeiro filho. Já foi publicado em outras fontes, como no Guia do Bebê.)

Elisa Manfrin: www.vidaemflor.com